Bullying

Bullying - O que é, o que fazer?

Dois exemplos:

António está sempre a chamar nomes ao João, fá-lo sistematicamente, o João não sabe e não consegue responder, sente-se mal com a situação e os insultos magoam-no emocionalmente de variadíssimas formas. O João não consegue responder e sente-se posto de parte pelos seus pares.

Outro exemplo:

O António goza com o João, o João diz para ele se calar, o António insiste, o João e o António andam ali a trocar insultos típicos da idade, uns mais fortes que outros mas ambos têm resposta à altura. Depois de um tempo, mais ou menos irritados, cada um vai para o seu lado sem especial mágoa.

As situações parecem semelhantes e são muitas vezes confundidas. Numa há bullying, noutra não. O Bullying é muito falado mas pouco compreendido. A noção popular é a de que o bullying é quando os miúdos gozam uns com os outros e isto não está longe da verdade mas é uma definição redutora e que retira importância ao que é, de facto, o bullying.

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O Bullying acontece quando os miúdos gozam com outro - e não uns com os outros. Acontece quando é feito por pares, quando uma ou mais pessoas visa agredir outra (seja de que forma for: verbal, fisicamente, etc) e quando existe um desequilíbrio de poder entre elas.

No primeiro exemplo, o António claramente massacra o João e deve fazê-lo várias vezes por dia ou por semana. O João não consegue ter resposta à altura e sente-se atrapalhado e, sobretudo, agredido porque não compreende a real razão dos ataques. O João vai para casa a sentir-se mal, não conta aos pais e tem menos amigos que o António, muito menos. Os dias do João podem passar a ser uma enorme fonte de stress e angústia.

É complicado ser o João, sobretudo quando se tem 10 anos e não se consegue ter discernimento suficiente para encontrar a solução que o adulto que está a ler este texto terá. De resto, o João cresce com a ideia que ele deve ser fraco porque sempre ouviu que este tipo de coisas não acontecia aos “fortes” e ele deve ser ainda mais incompetente porque não se consegue “defender” do António.

O João está em pleno ciclo vicioso causado pela violência decorrente do bullying que está a ser alvo mas, neste caso, não há polícias que o defendam nem leis que o protejam. Existe, até, algum estigma social que o incriminam e, acima de tudo, um enorme défice de conhecimento que leva a que ninguém à volta do João se dê conta e o ajude.


Dizer que o Bullying são “coisas de crianças” ou que “no meu tempo também era assim e ninguém morreu” ou, ainda, “eles têm de saber defender-se!”, são tudo formas de negação de um problema sério e com um enorme impacto na vida das crianças, um impacto presente mas, também, um impacto duradouro e, muitas vezes, para a vida inteira.

Para quem ainda não compreendeu o Bullying, imaginem a violência doméstica, onde o marido bate na mulher de forma sistemática e onde ela não se consegue defender porque existe um desnível de poder. Há silêncio e há muita dor, muita vergonha e humilhação. As cicatrizes são profundas e a saída é óbvia para todos menos para ela. Não há pedido de ajuda porque há medo de represálias e não há força para responder porque há o pavor de poder escalar um problema já, por si, grave.

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A isto não se chama bullying por questões técnicas. Chama-se violência doméstica mas é tão parecido que arrepia como, até há pouco tempo, se acreditava que “entre marido e mulher não se mete a colher”. Foi preciso tornar-se um crime público para se atender às necessidades de quem tanto sofria, sofreu e ainda sofre.

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O Bullying não é um crime público mas bem que podia ser tratado como se fosse. Todos os dias há 1 em cada 3 crianças a sofrer física e emocionalmente com este problema tão real e tão negado por tantos.

Vejam-se alguns dados importantes:

  • Os piores anos de incidência de Bullying são o 7º, 8º e 9º anos.

  • O Bullying acontece tanto entre rapazes como entre raparigas.

  • O Bullying entre raparigas é sobretudo verbal e de reputação.

  • O Bullying físico é apenas o 4º tipo de Bullying mais praticado, sendo o verbal o primeiro.

  • O Cyber-Bullying é um perigo recente e muito perigoso por não ser evidente quem são os agressores.

  • 80% das crianças prefere falar com os seus pares sobre o problema do que com os pais.

Então o que fazer?

Antes de mais, aceitar que o Bullying é um problema, é real, é grave e tem um enorme impacto na vida das crianças. Impacto esse que perdurará uma vida.

Depois, compreender se a criança envolvida é vítima ou agressora, há quanto tempo e em que formato.

Finalmente, tomar todas as medidas para ajudar a vítima a deixar de sê-lo (protecção, ferramentas emocionais novas, formas de reconstruir a sua posição, etc) e formas de ajudar o agressor a deixar de sê-lo (com políticas mais ou menos exigentes).

Tal como outros tipos de violência, o Bullying não tem uma solução “chave na mão”, requer um conjunto de soluções que envolvem a família, a escola, outros centros de apoio (a STAT, por exemplo), possíveis terapias, etc.

Acima de tudo, requer aceitação e acção.

Na STAT agimos diretamente sobre este problema e ensinamos as crianças a lidar com o Bullying e, sobretudo, a ser agentes contra o bullying. Capacitamo-las para nunca serem vítimas. Não é uma missão fácil mas altamente necessária. Na STAT optamos por trabalhar este problema do ponto de vista da capacitação da autoestima e da confiança dos alunos, bem como da consciencialização das famílias.

Existem outras organizações que ajudam nesta temática: a NO BULLY, a APAV ou a AABCJ, entre outras.

Existem soluções!